sexta-feira, 22 de abril de 2011

Leitura teológica da canção: Vitória, Tu reinarás!

Análise feita por: Leandro Alves de Souza, aluno do 3º anos de Teologia da Faculdade Dehoniana
www.dehoniana.org.br
Música: Vitória (David Julien – CD: As mais lindas canções da Igreja Católica)
Vitória, Tu reinarás! Ó cruz! Tu nos salvarás!
1. Brilhando sobre o mundo, que vive sem tua luz. Tu és um sol fecundo de amor e de paz, ó cruz!
2. Aumenta a confiança do pobre e do pecador. Confirma nossa esperança , na marcha para o Senhor!
3. À sombra dos teus braços, a Igreja viverá. Por ti no eterno abraço, o Pai nos acolherá!
A letra dessa música traz um valor singular, fundamentando-se num conteúdo soteriológico em torno da cruz. A cruz contribuiu para uma releitura salvífica feita pelos autores neotestamentários. Uma realidade totalmente humilhante e de punição perante o império romano e os judeus, mas que, em Jesus, ganha um novo significado de exaltação e de vitória.
Assim, percebem-se os valores soteriológicos presentes na letra musical que tenta resgatar a figura da cruz como sinal de salvação. O evangelista relata: “‘e, quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim’. Assim falava para indicar de que morte deveria morrer” (Jo 12, 32-33), significando que a salvação trazida, em Cristo, tem o poder de atração universal. Ele veio para salvar a todos, sem distinção.
São Paulo é o grande protagonista do anúncio salvífico de Cristo pela cruz: “Pois não foi para batizar que Cristo me enviou, mas para anunciar o Evangelho, sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo. Com efeito, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas, para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus. Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1, 17-18.22-24). A cruz é sinônimo da obediência de Jesus e de sua “renúncia” da divindade: “Ele, estando na forma de Deus não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto como um homem abaixou-se, tornando-se obediente até a morte, à morte sobre uma cruz. Por isso Deus soberanamente o elevou e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome, a fim de que ao nome de Jesus todo joelho se dobre nos céus, sobre a terra e debaixo da terra, e que toda língua proclame que o Senhor é Jesus Cristo para a gloria de Deus Pai” (Fl 2, 6-11). A morte cruenta de Jesus, portanto, “não é o ato de um Deus impiedoso… É o momento e o lugar em que um Deus que é amor e que nos ama torna-se visível” (COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL,Teologia da Redenção, § 10).
A cruz, segundo os textos neotestamentários, apresenta o significado soteriológico que vê o sacrifício de Cristo como oblação ao Pai e à humanidade, de modo que aconteceu a reconciliação com o mundo.
Porém, o refrão da música limita-se ao uso dos verbos conjugados no tempo futuro, dando a interpretação de que a salvação ainda acontecerá: “Ó cruz! Tu nos salvarás!” Se a interpretação for histórica, pode-se pensar que o evento da cruz aconteceu. No entanto, numa perspectiva escatológica ela consequentemente é um “já e ainda não”, pois a humanidade caminha para a salvação. A cruz, por conseguinte, é escatológica porque remete a humanidade às realidades definitivas por meio da graça de Deus. Ela não é o fim, mas o passo para a Ressurreição. Assim, soteriologia não está segregada da escatologia.
Isso não significa que Deus quisesse a morte cruenta de seu Filho, mas que a cruz foi uma conseqüência de toda a atividade profética de Cristo. François Varone afirma que: “Jesus morre então, por ter recusado até o fim todo o messianismo de poder… Mas Jesus é recusa para poder ser vida e revelação. Jesus morre, então, por ter vivido até o fim a verdade do homem e de Deus” (Esse Deus que dizem amar o sofrimento, p. 68).
Aqui se percebe o reducionismo da letra musical que aponta a cruz como salvação. Historicamente, a tipologia oriental e a tipologia ocidental cometeram o mesmo erro em restringir a salvação de Jesus em uma etapa marcante de sua vida. A primeira se limitou à Encarnação e a segunda à Paixão. Consequentemente, ambas deixaram de considerar a vida concreta de Jesus. Portanto, “A revelação do que seja salvação cristã abrangetoda a vida de Jesus Cristo” (MIRANDA, Mario de França. A Salvação de Jesus Cristo, p. 75). Logo, não existe um momento restrito da existência de Jesus, menos ainda a morte de cruz, que ofereceu a salvação, mas “Jesus proporcionou a salvação, não morrendo, mas vivendo. Ou melhor, a existência de Jesus foi toda ela salvífica, porque foi uma existência feita de entrega, em que a morte não é um fato isolado, mas a culminância lógica de um processo vital coerente, inteiriço” (DE LA PEÑA, Juan Luis Ruiz. Criação, graça e salvação, pg. 82).
Portanto, podemos concluir que a música contribui para pensar a cruz como uma realidade soteriológica, porém, falta conteúdo na mesma para expressar a vida toda de Jesus como evento salvífico. A existência integral de Cristo foi soteriológica, de modo que sua vida foi marcada pela oblação, libertação, acolhida, desapego e, sobretudo, amor.

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