quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Perdoar meus Inimigos: Utopia ou Dom de Deus?

Perder a maioria da família numa chacina é uma das situações mais dolorosas na vida de qualquer ser humano. Mais difícil ainda é saber perdoar os próprios assassinos. Em momentos de dor como estes, falar de perdão parece um insulto e uma falta de compaixão para com quem sofre. Vingança é a primeira coisa que vem à tona na nossa mente. Vingar o sangue dos seres mais queridos parece ser a única solução para cruzar o abismo enorme entre o ódio e a justiça. Para muitos, a mensagem do cristianismo parece não funcionar nessas situações críticas: amar os inimigos parece uma utopia e, algumas vezes, uma tortura.

Eu e todos os cristãos sabemos que Jesus Cristo nos deu Seu exemplo de perdão e de amor. Contudo, uma excusa bem comum surge em nossa mente: Jesus é Deus, então Ele pode tudo, até perdoar aqueles que o maltratam. Porém eu, um ser humano, não posso perdoar meu inimigo, porque isso é inumano. É me afogar nos sentimentos e emoções tentando reprimi-los e, se não for o pior dos casos, renegar a justiça.

Confesso, e aqui muitos simpatizarão comigo, que tive uma visão errada do perdão: reprimir as paixões e sentimentos que surgem em nós quando sofremos injúrias, calúnias ou outras injustiças. Essa visão errônea perdurou comigo até encontrar Immaculée Ilibagiza, uma sobrevivente do genocídio que assolou Ruanda em 1994. Ela perdeu tudo e todos a quem amava, exceto seu irmão mais novo. O mais surpreendente não é vê-la viva fisicamente ( ela refugiou-se em um banheiro, com mais de sete mulheres por 91 dias sem comida e sem a luz do sol), mas vê-la florescer espiritualmente. Hoje, ela proclama a maravilha que Deus fez em sua alma, por meio do perdão, que ela ressalta enfaticamente ser “uma graça de Deus”. Ela soube perdoar os assassinos da sua família.

Após escutar as suas palavras, espero que a análise abaixo exemplifique como Deus a ajudou a cruzar o abismo do ódio e atingir os prados verdejantes do perdão.

1. Antes de tudo, um esclarecimento: o perdão é um dom e uma graça de Deus. Temos que Lhe pedir que no-lo conceda. Por ser uma graça, o perdão não é algo natural ao homem, porém também não é algo desumano. Pelo contrário, tem valor e efeitos curativos na nossa alma e até no nosso comportamento fisiológico e psicológico já comprovados pela ciência. Então, ao invés de rebaixar e denegrir o homem, Deus, através do perdão, nos cura de uma chaga bem profunda: o ódio cancerígeno.

2. Agora, lembre-se do Pai-Nosso: há duas partes nessa oração que dão a chave para abrir o segredo do perdão: “Pai Nosso” e “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos aqueles que nos tem ofendido”. “Pai nosso”: se rezarmos esta oração com todo o significado que Jesus nos transmitiu, estaremos reconhecendo que Deus é Pai de todos os homens, ou seja, todos os homens sejam eles bons ou maus têm o mesmo Pai e isso quer dizer que todos somos irmãos e que todos somos filhos de Deus. Esse é o primeiro passo para destruir a bélica palavra "inimigos". Com isso, uma das barreiras já foi eliminada visto que agora já podemos ver todos como irmãos e filhos de um mesmo Pai. “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido”: a segunda parte da oração pede a Deus que nos perdoe da mesma maneira e no mesmo grau com que nós perdoamos aqueles que nos feriram. Essa é a condição que impomos para sermos perdoados, pois sabemos que não merecemos o perdão. Jesus, na Sua bondade e misericórdia infinitas, nos deu a possibilidade de escolher como queremos ser perdoados: da mesma maneira que meus irmãos são perdoados por mim.

3. Pense nisso: “Pai, perdoai-os, pois eles não sabem o que fazem”: essa é oração foi proferida por Cristo na cruz. Ele que foi injustamente condenado e morto pelos seus próprios irmãos. Se Ele que vê os corações de cada ser humano , soube perdoar essa injustiça colossal feita contra Ele, quanto mais nós que não vemos os corações e as intenções dos homens devemos perdoar nossos agressores. Sabemos por experiência própria que, às vezes, agimos como cegos sem enxergar um palmo adiante. Então, não temos o direito de julgar os nossos irmãos intransigentemente. Não apenas isso: o nosso dever é o de rezar para que sejam perdoados seus pecados, para que possam receber a misericórdia de Deus.

4. Sinta a cura do perdão: o efeito mais destrutor do ódio é o rancor e a amargura com que vivemos a nossa vida. Às vezes, é tão grande e pesado que não podemos pensar em nada positivo. Sentimos nosso interior se corroer, enferrujar, perder o gosto pela vida; o estresse nos mata, a nossa vida está assombrada pelo fétido desejo de vingança. É nesse cenário que surge o perdão. Deus nos dá a graça para saber perdoar de coração os nossos irmãos insolentes que nos agrediram, feriram ou maltrataram de alguma maneira ou outra. O perdão vem nos liberar desse ódio, rompendo as algemas do rancor e nos dando a esperança de um mundo melhor, nos abrindo para o amor. O perdão não está em oposição à justiça. Embora essas duas virtudes tenham como objetivo curar os efeitos do pecado e do mal, elas têm dois diferentes papéis. Um dos papéis do perdão é reconciliar o íntimo das pessoas consigo mesmas, com os outros e com Deus. A justiça corrige a desordem externa causada pelo pecado.

Immaculée Ilibagiza saiu na frente, perdoou os seus agressores com a graça de Deus. Ela faz questão de afirmar, que o perdão é uma cura, é um acordar para o futuro, é um dom da graça de Deus.

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