domingo, 18 de julho de 2010

O sucesso comercial dos padres cantores

Apontada como um sucesso de gênero, a música católica arrasta multidões e consolida uma mudança do gosto musical do brasileiro. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), o estilo musical que teve sua alvorada nos anos 70 com o Padre Zezinho, caiu definitivamente no gosto dos brasileiros, que até bem pouco tempo torciam o nariz para o gênero, que chega agora ao seu apogeu, encabeçado principalmente pelo Padre Fábio de Melo, cujos álbuns vêm se sucedendo no topo dos mais vendidos do País.

Para se ter uma ideia do sucesso da música católica, o Padre Fábio de Melo, que já havia abocanhado o primeiro lugar em número de álbuns vendidos em 2008 com o CD Vida pela Som Livre, emplacou quatro títulos no top 20 dos CDs mais vendidos de 2009.

Somente com Vida e Eu e o tempo, lançados em 2009, foram vendidas 1,6 milhões de cópias - números que despertariam um dos pecados capitais - a inveja - em muitos artistas consagrados da MPB.

Assim como Fábio de Melo, a estimativa é de que cerca de 2,5 mil bandas católicas procuram um lugar ao sol da indústria fonográfica brasileira. Ao ano, são mais de 500 CDs religiosos lançados pelas gravadoras e em produções independentes.

Os números refletem a mudança no gosto musical do brasileiro. Diferentemente do que acontecia há 20 anos, quando muitos podiam não gostar se um sacerdote ousasse dividir o palco com grandes ícones da MPB, hoje, os cantores católicos e gospels são convidados a participar de shows e chegam a até ser a "estrela" principal de alguns eventos. Assim, o CD Iluminar é repleto de participações especiais, como Elba Ramalho, André Leono, Zezé di Camargo e Luciano.

Um exemplo disso foi vivido pelo Padre Reginaldo Manzotti, um dos ícones da música católica, quando ele contou com a participação do grupo Exaltasamba - um dos mais populares grupos de pagode do País - na gravação do DVD ao vivo diante de mais e 20 mil pessoas em um estádio de futebol.

"Hoje é clara essa mudança de mentalidade, que há 20 anos não havia. Nas minhas celebrações e eventos eu vejo jovens que não tem vergonha de cantar as músicas católicas e as cantam como qualquer outro estilo musical", afirma.

Com uma média de 50 mil pessoas por show, Manzotti vê a música como um instrumento para atrair a juventude para a Igreja. "A música, que é uma linguagem universal, funciona como uma seta que vai direto no coração. E a música, com conteúdo, ela agrega e atrai, principalmente a juventude", afirma.

Manzotti ressalta que a mensagem da Igreja é amplificada pelas mais diversas expressões midiáticas. Somente o programa de Manzotti é transmitido por 642 emissoras de rádio e por 166 canais de televisão. Já o site do padre na internet vem registrando números superiores a 400 mil acessos por mês.

Para Manzotti, o sucesso das expressões artísticas da Igreja Católica no Brasil revela que a instituição compreendeu a necessidade do uso da mídia para evangelizar.

"Dá para perceber que as pessoas estão necessitadas de Deus. E se a Igreja ficar pregando para os que estão dentro da igreja, esta não será uma forma de evangelização suficiente. A grande catedral hoje se chama microfone", afirma.

Outra possível explicação para o estrondoso sucesso dos padres cantores é o atual estágio da música brasileira, que, segundo Reginaldo Manzotti, "está passando por um momento terrível de qualidade".

Para o padre, as rádios estão reproduzindo músicas que se caracterizam por apelos comerciais. Ele acredita que o grande público anseia por produtos culturais mais refinados. "São raras as músicas que tocam uma boa MPB. O famoso jabá ainda persiste e prejudica a qualidade da música", conclui.

Eles são sucesso também no campo literário

Dentre os padres cantores mais bem sucedidos, há os que também são sucessos de venda de livros de cunho religioso. Padre Zezinho, que já gravou 117 CDs, escreveu 43 de livros. Ele ainda se divide ainda entre programas de rádio e televisão diários, escreve artigos e ainda acha tempo para participar das pastorais da Igreja.

Ainda se não bastasse manter sucessivos álbuns no topo das paradas de sucesso, o Padre Fábio de Melo é também autor de livros campeões de vendas como os títulos Quem me roubou de mim, Tempo: saudades e esquecimentos, Quando o sofrimento bater à sua porta, Amigo: somos muitos, mesmo sendo dois e Mulheres de aço e de flores.

Outro padre que se equilibra na linha dos sacerdotes que catam e escrevem é o Padre Reginaldo Manzotti, cuja primeira obra literária, Dez respostas que vão mudar sua vida, se consolidou como um sucesso de vendas.

Diante do expediente repleto de compromissos, a pergunta que fica é se os padres conseguem exercer o sacerdócio em meio as recheadas agendas dignas de verdadeiros pop stars. A maioria deles é categórica em afirmar que esse dilema não existe.

O Padre Reinaldo Manzotti, que utiliza a música como um meio de evangelização desde sua ordenação há 15 anos, conta que não vê problema em conciliar as atividades de padre com a agenda de shows.

"Hoje eu tenho uma agenda de eventos para quase todo o final de semana, onde milhares de pessoas que vão lá para ouvir o padre cantar, pregar. Eu faço questão que seja forte essa figura do sacerdote", afirma.

O posicionamento do eclético Manzotti, que, dentre a sua preferência musical, que vai do sertanejo à banda norte americana Guns N' Roses, é confirmado por atividades que ele não abre mão, como a missa diária que ele celebra na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, no centro de Curitiba.

"Não abro mão de ser padre e de atender as pessoas. Não há conflito quando a pessoa sabe se posicionar e eu faço questão de me posicionar como padre", diz. (NA)

Tudo começou com Zezinho

Quem não conhece a letra "abençoa Senhor as famílias amém"? Referenciada até hoje, a Oração pela família, cujo CD chegou a vender mais de um milhão de cópias, é um dos grandes "hits" do pioneiro da música religiosa no Brasil.

Atualmente, o Padre Zezinho é reconhecido como o precursor do gênero no País não só por católicos, mas também por expoentes da música gospel. Ao longo de 45 anos, o Padre Zezinho, que começou a compor em 1964 com a ideia de fazer apenas algumas canções para a sua paróquia, acumula mais de 1,5 mil canções compostas, traduzidas em cinco línguas e divulgadas em 40 países.

Zezinho, que esteve em Curitiba no último mês, onde se apresentou durante as comemorações dos 50 anos da Igreja do Perpétuo Socorro, não esconde o orgulho de ter despertado os ouvidos dos brasileiros pela música religiosa.

Ele, no entanto, é taxativo em refutar a ideia de que o novo formato da música católica, que teve o seu "boom" com o midiático Padre Marcelo Rossi, seria uma respostas ao movimento gospel, que teria culminado com o arrebatamento de parte dos fiéis para as comunidades evangélicas.

Segundo Zezinho, quem começou a reunir multidões e a dar show foi a Igreja Católica. "Particularmente, desde que comecei (a cantar) nunca fiquei preocupado com o crescimento das outras igrejas. Não comecei a cantar por causa dos evangélicos, até porque a maioria deles começou a cantar por causa de mim", afirma. Entretanto, Zezinho reconhece a qualidade das bandas e dos cantores evangélicos. "E eu fico feliz de ter influenciado também a eles", diz.

Zezinho, que encara diariamente uma rotina de shows e compromissos canônicos, conta que o projeto inicial idealizado por ele tinha o objetivo de fazer comunicação de massa.

Mesmo com o sucesso, o padre prefere evitar a superexposição. "A primeira razão do meu trabalho é a multidão e o povo de Deus. Aí quando eu começo a aparecer de mais eu caio fora", afirma.

O padre deixa claro que compreende a opção feita por outros colegas de batina que preferem uma maior notoriedade em busca de uma divulgação maior da doutrina católica.

Para o Padre Zezinho, a música é secundária dentro da Igreja Católica é secundária. "O bolo é que é importante. O chantili é secundário. Dá pra fazer uma missa muito bonita sem música. Mas com música é melhor, ela é o chantili do bolo", sentencia. (NA)

Um comentário:

Flávio Bueno disse...

Excelente post Digão!!!

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